9 de março de 2012

APARÊNCIAS

Chamava-se Epaminondas e sempre tentava se fazer passar por outra pessoa. Ninguém sabia o que ele fazia, nem onde morava, mas sempre o viam passando pelas ruas do Jardim das Tulipas, o bairro mais nobre da cidade, à pé, por recomendação médica – segundo ele –, com sua longa e esvoaçante barba ruiva, vestindo-se impecavelmente, de terno, gravata e sapatos tão lustrosos que poderiam ofuscar a visão. Só não ofuscava a dele por causa do raiban espelhado. Por onde passava, todos o cumprimentavam, admirados por sua imponência.
_ Bom dia, dr. Epaminondas! Como tem passado?
_ Bem, obrigado!

Homem de reservadas palavras e um cavalheiro. Jamais recusou-se a dar esmolas aos que o pediam, e aos que não o pediam também, bastando ter cara de pobre. Era bem verdade que não suportava a ralé e o cavalheirismo que lhe era peculiar não passava de uma forma de ostentação. Dava esmolas, mas sempre com aquele olhar de quem diz: “olha só pra mim. Sou tão rico, que não vai me fazer a menor falta dar umas moedinhas pra você ir afogar as mágoas de sua vidinha miserável na cachaça do bar da esquina. Pega logo essa grana e some da minha frente, seu pobre!”. Sim, você conhece o tipo.

Seu nome era citado nas páginas sociais de todos os jornais da região e frequentemente associado a tórridos casos amorosos com celebridades. Muitos juram tê-lo visto, entre tapas e beijos, com a Luana Piovani e a Carolina Dieckmann, uma em cada braço, discutindo entre si por causa de uma suposta troca de olhares entre ele e a Aline Moraes. Diziam que casou-se e divorciou-se várias vezes, mas os processos judiciais e pensões alimentícias milionárias sequer cocegavam suas finanças. E o “dr.” Epaminondas, como sempre reservado, pouco se pronunciava a respeito mas ajudava a por mais lenha na fogueira sempre que lhe fosse oportuno.

Quando lhe perguntavam seus planos, parecia demasiadamente ocupado planejando uma viagem de negócios no exterior ou um jantar com o Presidente da República.
_ No momento, estou estudando patrocinar a Seleção Brasileira!

Um dia desses, pareceu-se bastante interessado em comprar a mansão do Bill Gates, mas desistiu por que não aguentaria viver longe da terrinha. Onde morava? Ninguém sabia, nem lhe ousava perguntar. O que fazia? Era segredo, assim como o seu sucesso. Era um homem rico e excêntrico, como todos os homens ricos e excêntricos. Ou, pelo menos, um mestre dos disfarces.

O único que conhecia mesmo o Epaminondas era o seu Juarez, dono de um desses botecos mal frequentados de esquina. Ainda faltando algumas quadras do local de trabalho, “dr.” Epaminondas ia se desfazendo discretamente de seu disfarce, escondendo tudo numa maletinha de couro à tiracolo. Ia-se até mesmo a longa barba ruiva. Transformava-se logo num pacato faxineiro de boteco. Trabalhava ali mesmo, no bar do seu Juarez, e punha-se todos os dias a limpar a sujeira dos fregueses, que nunca o reconheciam graças ao efeito etílico da cachaça barata vendida no recinto.

Todos os seus rendimentos eram “investidos” na manutenção das aparências. Às vezes, ganhava no Bicho, e não dava outra: punha-se a realizar festas caras em salões luxuosos, reservadas às celebridades e autoridades locais, com a imprensa de fofocas à espreita. Em uma noite, gastava a renda de meses. Se sobrasse alguma coisa, pagava os cursos de idiomas. Tinha de aprender a falar pelo menos francês, tanto pelo glamour quanto para entender do que se tratam aqueles pratos dos restaurantes requintados em que, vez por outra, era visto frequentando. Não é mole essa vida de rico.

Até que um dia a sorte bateu à sua porta. Ganhou na Mega Sena acumulada, e, do dia pra noite, ficou milionário. O jardim de sua casa não tinha grama, mas grana, e todas os finais de tarde Epaminondas se punha a varrer dinheiro do quintal. Esbanjou-se como pôde. Já não era alvo de boatos, pois ele mesmo tinha todas as mulheres de que precisasse e envolvia-se em todos desses escândalos que só os ricos se enroscam. Fechou negócios no exterior, jantou com o Presidente da República e até patrocinou a Seleção.

Até que entrou no cheque especial e começou a contrair altos empréstimos nos Bancos para cobrir os juros. Passou a ser visto em botecos mal frequentados, sempre maltrapilho e resmungando o quanto a vida lhe era injusta. Hipotecou a casa, vendeu o que pôde e se cadastrou em todos os programas de esmola social do Governo. Da última vez, estava tentando adquirir um imóvel pelo programa “Minha Casa, Minha Vida” e o “Bolsa Família” mal dava para alimentar os doze filhos. Não é mole essa vida de pobre.

Dinheiro não faltava. Pelo contrário, o velho Epaminondas mantinha tudo bem guardado numa Poupança, e só os juros garantiam-lhe renda para a vida toda. Mas era preciso manter as aparências.

Nenhum comentário:

Postar um comentário