12 de outubro de 2013

TROPA DE ELITE

Não sou um profundo conhecedor do cinema nacional, confesso. Pra ser ainda mais sincero, tudo o que vi nas telonas foi Meu Nome Não é Johnny, Dois Filhos de Francisco, Se Eu Fosse Você, Guerreiro Didi e Ninja Lili (este, porque o cinema da cidade estava em promoção) e, e... não me lembro de mais nada. Posso adicionar alguns filmes que vi na TV, alguns curtas e, enfim, a verdade é que não sou conhecedor tampouco superficial do cinema nacional.

Apenas por esta razão é que não tenho como dizer que TROPA DE ELITE 1 e 2 foram os melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Tenho muita vontade de afirmar isso, mas, por desconhecimento de causa, vou ficar de boca fechada pra não entrar mosquito. Mesmo assim, que Tropa de Elite foi uma das melhores produções cinematográficas já feitas no Brasil, isso lá é verdade. O sucesso estrondoso nos cinemas - apesar da pirataria massacrante - atesta que os espectadores brazucas curtiram os dois filmes.

Como fã da saga Tropa de Elite, quero aproveitar pra tecer minhas considerações sobre esta produção épica de José Padilha. Já vou avisando que, aqui, tem spoiler até falar chega! Mas como tenho quase certeza de que você, amigo leitor, já assistiu aos dois filmes (e, se não assistiu, gostaria de xingá-lo com algum palavrão feio... mas prometo resistir à tentação), vou em frente.

Os temas centrais dos dois filmes são a violência urbana, a corrupção entre os "representantes do povo", o tráfico ilícito de drogas e a porrada que come solta entre a bandidagem, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e a Polícia Militar. Escolheram o Estado do Rio de Janeiro como pano de fundo, mas a carapuça serve para o Brasil inteiro. No primeiro Tropa de Elite, estes elementos aparecem de forma mais visceral nas favelas e nas bocas; enquanto que, no segundo, o foco é a corrupção maciça nas esferas maiores do Poder. São dois filmes que se diferenciam e se completam, ao mesmo tempo, sem perder o fio da meada.

Em Tropa de Elite, temos o Capitão Roberto Nascimento (magistralmente interpretado por Wagner Moura). Um heroi sem máscaras, humano, incorruptível e sem um pingo de misericórdia quando se trata de caçar a manolada nos morros. Para ele, "missão dada é missão cumprida".. e, para isso acontecer, vai até às últimas consequências. Entretanto, seu "lado humano", por assim dizer, o castiga continuamente. Capitão Nascimento está de saco cheio, estressado, tem uma mulher para sustentar e acaba de saber que vai ser pai assim, no meio de uma missão, caçando traficantes aos tiros e pontapés.

Agora, a missão pessoal de Capitão Nascimento será escolher um substituto à altura, que não tenha medo de cravar a faca na caveira e mandar colocar traficantes "na conta do Papa". E uma luz de esperança se acende sobre dois aspirantes ao Bope: Neto (Caio Junqueira) e Mathias (André Ramiro). Os dois demonstram grande responsabilidade, muita garra e determinação nos testes; praticamente um reflexo do próprio Capitão Nascimento... embora ainda lhes faltasse um pouco de treino.

O grande problema de Mathias foi se envolver amorosamente com Maria (Fernanda Machado), uma estudante de Direito, voluntária em uma ONG e com rabo preso com o traficante Baiano (Fábio Lago), o chefão do morro. Baiano acaba descobrindo que Maria namora um policial e, fulo de raiva, não tem o menor ressentimento em mandar matar associados da tal ONG (como o administrador Rodrigues e sua namorada Roberta), apenas para mostrar quem manda. Mas o Baiano acaba assinando sua própria "sentença de morte" ao matar Neto... nada menos que o preferido do nosso Chuck Norris brasileiro, Capitão Nascimento. "Na cara não, pra não estragar o velório". Foram as últimas palavras do chefão da boca.



Em Tropa de Elite 2, a violência urbana continua crua. Mas o foco deixa de ser os traficantezinhos pés de chinelo. Não temos mais aqueles bordões consagrados, como "pede pra sair", "coloca ele no saco", "você é um fanfarrão" etc, etc. O inimigo agora é outro: a polícia corrupta e a podridão na política. É ano eleitoral e o governador do Rio de Janeiro, candidato à reeleição, vai fazer de tudo pra chegar lá... até mesmo se unir a um policial militar corrupto (Major Rocha), ao deputado estadual Fortunato (apresentador de um programa sensacionalista de TV, à lá Datena) e ao Secretário de Segurança Pública para engendrar um esquema para angariar votos. A ideia era basicamente a seguinte: membros das milícias comandadas pelo major Rocha invadiriam uma delegacia e forjariam roubo de armas da polícia, botando a culpa nos traficantes do morro. O governador ordenaria que o próprio Coronel Roberto Nascimento, agora Subsecretário de Inteligência do Rio de Janeiro (cargo que lhe fora incumbido por razões políticas, alheias à vontade do próprio Nascimento), liderasse uma caça aos traficantes, em busca das tais armas. Bandidos pés-rapados seriam mortos, a mídia ressaltaria a ação enérgica do governador e pronto! Sucesso nas eleições.

Apesar de Nascimento não aceitar fazer parte dessa palhaçada toda, acabam recrutando o velho homem de preto Mathias para liderar a operação e tudo sai como planejado... embora as tais armas nunca tenham sido encontradas e, no fim, Mathias acabe assassinado a mando de major Rocha (coisa que a mídia não fez a menor questão de ressalvar).

Estava tudo quase dando certo, com o governador já comemorando, antecipadamente, a vitória nas urnas... quando uma jornalista acaba encontra materiais de campanha eleitoral numa casa que funcionava como quartel-general das milícias comandadas pelo próprio major Rocha. Percebendo a ligação entre o governador do Rio de Janeiro e a bandidagem, a jornalista telefona para o candidato à Deputado Estadual Diogo Fraga (Irandhir Santos) e vai contando tudo... mas é surpreendida pelos bandidos e morta. O "estrago", porém, já estava feito. Fraga é marido de Rosane (Maria Ribeiro), a ex-esposa de ninguém menos que Coronel Nascimento. Fraga consegue instaurar uma CPI e Nascimento vai acusando, como testemunha-chave, toda a cúpula do governo do Rio de Janeiro.

A saga termina de maneira emblemática, num tom quase niilista, como se o país, tragado pela corrupção instalada nos três poderes da República, estivesse irreversivelmente sucumbido a um sistema podre que jamais irá mudar. A cena final, focando o próprio Congresso Nacional, deixa a clara mensagem de que o filme ambicionou pingar limão na ferida de todo o Estado Brasileiro... incluindo o espectador nos cinemas. Chega a arrepiar!



Tropa de Elite é uma saga que veio revolucionar o cinema brasileiro. As atuações são incríveis, temos várias cenas de tirar o fôlego e os roteiros dos dois filmes são muito bem amarrados, com construções detalhistas de personagens e histórias convicentes. Muito mais do que um filme policial com ênfase em violência urbana (que sempre foi um grande problema no Brasil), Tropa de Elite crava uma faca na história da sétima arte. Uma saga corajosa, épica e inesquecível.