12 de novembro de 2013

MAUS: A HISTÓRIA DE UM SOBREVIVENTE

Nunca compreendi o nazismo! Sério! Por mais que me esforce, não consigo encontrar nenhuma justificativa plausível para a existência de um tipo de ideologia galgada quase que exclusivamente no ódio racial gratuito. Pior ainda fica entender o que levou um Estado, uma nação inteira, a despender tanto investimento e esforço para perseguir, prender e assassinar pessoas apenas por uma megalomania racial. Imagino o quanto chegou a custar, para os bolsos do povo alemão, por exemplo, a construção de campos de concentração altamente vigiados com capacidade para enclausurar milhares de judeus; além da tecnologia nelas empregada, para matar mais presos com a maior eficiência possível. E quanto ao efetivo militar que se precisou sustentar para tornar possiveis os ataques antissemitas? Quanto tudo isso custou? E, afinal, qual foi a recompensa?

Mas, se custo a entender a Alemanha Nazista, de uma coisa eu sei: o sofrimento dos judeus perseguidos foi além de qualquer compreensão que eu tinha, até terminar de ler uma das maiores produções quadrinhísticas que já me foi apresentada: “MAUS: A História de um Sobrevivente” (Maus: A Survivor’s Tale).

Pra quem não conhece, a obra é uma produção premiadíssima do quadrinhista estadinudense Art Spiegelman. Nela, o autor narra a história de seu pai, Vladek Spiegelman, um judeu polonês que viveu sob o regime do Terceiro Reich e sobreviveu ao Holocausto. Uma história sem romances, sem firulas, nenhum embelezamento. Apenas a história de um sobrevivente do maior e mais sangrento campo de concentração de judeus: Auschwitz.

A obra completa é dividida em dois livros: “I – Meu Pai Sangra História”; e “II – E Aqui Meus Problemas Começaram”. O próprio autor é um dos protagonistas, que vai coletando informações apenas entrevistando seu pai. Vladek Spiegelman é aquele judeu estereotipado: avarento, resmungão, egoísta e, por incrível que pareça, racista. Mas se revela um homem extremamente metódico, meticuloso e inteligente à medida em que vai narrando sua história em detalhes impressionantes. Ele é capaz de descrever, em minúcias, como eram construídos os “bunkers” (esconderijos com estoque de alimentos) nos sotãos e porões, como eram feitas as trocas de alimentos nos tempos de perseguição e racionamento, como as propagandas nazistas eram difundidas, como funcionavam as câmaras de gás e os crematórios e, até, como consertar sola aberta de botas dos soldados alemães. Nada mal pra um senhor com seus 60 e poucos anos. Vladek foi, também, um homem de muita sorte. Conseguiu fugir de ciladas quase impossíveis e conquistar pessoas importantes de dentro do Auschwitz, o que acaba sendo vital para sua própria sobrevivência.

Uma grande sacada de Art Spiegelman foi retratar cada grupo étnico como espécies de animais. Ali, os judeus são ratos (isto é, maus, em alemão), os alemães, gatos; poloneses, porcos; americanos, cachorros etc., satirizando as imagens propagandistas do nazismo que retratavam os judeus como ratos. O antropomorfismo, entretanto, não embeleza a história nem desumaniza os personagens. Pelo contrário! Aqui, a violência é retratada de forma crua, com enforcamentos e cremações de judeus vivos. O medo e o desespero dos perseguidos e o ódio nazista são expostos de forma visceral. Há momentos na leitura em que não se sabe se vale a pena continuar, pela repugnância dos fatos ali retratados; mas, ao mesmo tempo, se quer terminar logo para saber como Vladek conseguiu, afinal, sobreviver aos horrores pra contar toda a história. É um livro que mexe com nossos sentidos, remexe nossas emoções e nos faz rever vários conceitos. Tudo isso, sob a perspectiva de que se trata de uma biografia! Ou seja, tudo aconteceu; foi real!


O primeiro livro foi dividido em 6 capítulos: O Sheik, A Lua-de-Mel, Prisioneiro de Guerra, O Laço Aperta, Buracos de Ratos e A Ratoeira. Cada qual demonstrando a história dos judeus, desde o início da perseguição até o término da Segunda Guerra Mundial e o fim do Terceiro Reich. Passou pela minha cabeça resumir cada capítulo aqui, mas prefiro suscitar a curiosidade do leitor. Já o segundo livro é mais pessoal, mostrando as relações conflituosas do próprio autor para com seu pai e de seu pai para com sua última esposa: Mala. Neste, a entrevista entre Art e Vladek continua, e o autor intercala, sem jamais perder o foco, os fatos de seu cotidiano com as histórias sangrentas de seu pai.

Enfim, MAUS: A História de Um Sobrevivente é simplesmente a narrativa mais incisiva e visceral já feita sobre o Holocausto. Uma obra-prima dos quadrinhos!

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